Aumente seus glúteos com astrologia e meritocracia / aulas de crossfit para iniciantes em neoliberalismo

(ao meu amor)

Medalhas são objetos entregues usualmente por organizações como forma de reconhecer ou destacar a excelência de um ato ou atividade de um indivíduo ou grupo. A etimologia da palavra remete ao valor financeiro do metal. Quando pendendo de um cordão, a medalha coroa o coração de quem a usa e ilumina seu rosto, a parte visível de um infinito inapreensível. A medalha posta é o reconhecimento de que o possuidor do tal colo soube torcer o ilustre pescoço e mirar seu olhar e suas ações às direções mais vantajosas. Existem as medalhas militares, as esportivas, as ligadas ao conhecimento, as entregues pelo estado, as que reconhecem o valor do trabalho de uma pessoa em relação ao bem comum de uma sociedade e as que atestam vitórias em guerras, batalhas, competições, etc.

Os troféus têm basicamente a mesma função, porém, a origem da palavra e a genealogia do objeto estão ligadas aos espólios de guerra que comprovavam a derrota de um inimigo: podiam ser fragmentos de um monumento significativo, peças de valor pilhadas ou até mesmo partes decepadas do corpo de um inimigo importante. Hoje em dia, muitos troféus têm formato de taça, uma derivação das antigas ânforas com azeite entregues para lutadores sobreviventes e vitoriosos das Grandes Panateneias, festas na Grécia antiga em homenagem à deusa Atenas. Como se sabe, a oliveira é a árvore sagrada dessa divindade e receber seu óleo era a comprovação de que o lutadorhavia sido abençoado por Atenas para derrotar o oponente. Quando o azeite sagrado da premiação era utilizado até o fim, o vaso restava como lembrança da vitória, dando origem ao formato das taças e vasos dos troféus modernos.

Já a coroa de louros tem origem numa tentativa de assédio e perseguição obsessiva. Eros, o também deus grego, desafiado pela arrogância de Apolo, fez o deus da arte se apaixonar por Dafne, uma linda ninfa que recebera o encantamento contrário, passando a ter repulsa por Apolo. Desesperada (a que ponto se pode chegar pra fugir um macho branco perseguidor!), Dafne pediu ao deus-rio Peneu, seu pai, para transformá-la definitivamente em um loureiro. Realizado o pedido, Apolo,inconformado, declarou o louro a sua planta sagrada. Os louros passaram a ser entregues, em forma de coroa, para os generais vencedores em batalhas gregas e posteriormente romanas. Os pedaços frescos ou secos ou em pó do corpo de Dafne servem hoje em dia para temperar carnes, caldos, peixes e outros alimentos de lento cozimento.

Atualmente, medalhas, troféus e coroas de louro são entregues ao final dascompetições, como as Olimpíadas, para os atletas vencedores. Porém, já sabemos que os verdadeiros premiados por esses grandes eventos são as empreiteiras, as marcas de roupa e demais produtos esportivos, as próprias empresas organizadoras, os governos envolvidos em escândalos e - claro - as máfias internacionais decorrupção, que se valem da cultura da competição, das ondas de reforço identitário nacionalista e da vontade de congregação para minar dinheiro para paraísos fiscais. O Rio de Janeiro conseguiu a proeza de sediar quatro dos maiores eventos esportivosdo mundo em apenas nove anos: Jogos Pan-americanos de 2007, Jogos Mundiais Militares em 2011, Copa do Mundo de Futebol de 2013 e Jogos Olímpicos de 2016.

Em 2017, com o ex-governador Sérgio Cabral e o ex-presidente do COB Carlos Arthur Nuzman presos, as medalhas, troféus e coroas de louro voltaram à CidadeMaravilhosa. Porém, dessa vez, de outra maneira. A exposição “Honra ao Mérito”,primeira individual da artista paulistana Yuli Yamagata no Rio de Janeiro, parte do projeto Solo Projects [Rio] Novas Poéticas 2017, é composta por seis obras que, com jocosidade e leveza, debocham da relação entre o esporte e a competitividade. Para essa mostra, por meio de jogos de escala, de forma, de meios e de materiais, Yulicriou um universo fantástico e alegórico instaurado por objetos que remetem principalmente ao universo olímpico e à experiência da infância.

É certo que o jogo é algo presente em todas as culturas, como forma de socialização e diversão, como parte de rituais religiosos e políticos, como parte dos processos coletivos de expansão do conhecimento e como dinâmica de manutenção etransformação da tradição e das estruturas sociais. Porém, nem todos os jogos são competitivos, antitéticos e agonísticos - nem sempre as singularidades são construídas a partir da derrota violenta do outro. No caso dos jogos olímpicos, o que sustenta os arcos coloridos entrelaçados naquela estranha posição é a força de mãos assombrosas e invisíveis que mantêm viva a ludicidade especificamente violenta e mortal derivada das guerras. O que é mais estranho e nocivo é que a competição esportiva e os jogos olímpicos sejam ensinados nas escolas para crianças, como exemplos de forma equilibrada e pacífica de estar no mundo em sociedade.

Na exposição de Yuli, o troféu é agigantado, intitulado “Troféu” e é forrado com uma estampa que simula a pele de uma cobra. O corpo do animal se eleva do chão reto como uma haste vertical e se enrosca no ar. Não vemos a cabeça: a ameaça de um ataque pode estar voltada para qualquer direção, mas o bote significaria também umnó em si mesma. A medalha, “Menção Honrosa”, também enorme, é macia como um colchão e está, triste e cansada, apoiada na dobra entre o chão e a parede. A grande fita azul acetinada da medalha escorre em direção ao centro da sala como um rio delágrimas. A coroa de louros,”PARABÉNS”, também em escala maior do que a proporcional à cabeça de um humano é o recorte de uma estampa de folhas estofada com fundo dourado e apoiada em suporte para samambaias na parede.

Junto a esses objetos há mais três trabalhos. Um deles é “Jogging - podium”, umatripa de tecido dourada estofada como um cilindro flexível com dois tênis para crianças de cinco anos também dourados nas pontas formando duas perninhas. Essa síntese de corpo se localiza com um pé sobre um retângulo que simula, com seu revestimento de tecido estampado, um mármore, e o outro pé sobre o assoalho do espaço deexposição. É como se víssemos uma miniatura de competidor vencedor no momento seguinte à premiação, saindo do pódio. A escala regente nesse universo de Yuli entre o pequeno ser das perninhas e as premiações descomunais citados anteriormente pode nos apontar para a possibilidade de que estamos assistindo a narrativa da competição esportiva do ponto de vista de uma criança ou aprendida na infância, quando éramos bem pequenos e essas premiações sinistramente titânicas.

Um detalhe importante é que, no troféu, próximo à base da peça, parte do tecido que imita o couro ofídio está desprendida, como se o animal estivesse iniciando o processo de muda ou ecdise. É sabido que as cobras “trocam” de pele para aumentar de tamanho. Portanto, essa premiação-cobra, estranho objeto de desejo do competidor, está hipertrofiando enquanto o ser da perninha vence e cresce.

Outro trabalho é uma coluna construída com colchonetes azuis. Esses objetos, originalmente utilizados para processos de treinamentos esportivos ou exercícios de ginástica, surgem no espaço expositivo como um grande totem, monumento ou coluna de sustentação. Em suas superfícies, vemos pintados com verniz desenhos com formas inspiradas nas esculturas helênicas ou a própria representação naturalista das marcas deixadas pela transpiração dos atletas deitados sobre esses equipamentos durante treinos. A construção dessa coluna é a criação de um monumento ao suor, é o totem do esforço corporal que leva as pequenas perninhas às grandes premiações.

Um último trabalho, bem discreto, “constelação”, eram 4 constelações formadas nas paredes do espaço expositivo por estrelinhas douradas adesivas. Essas estrelas brilhando no céu e orientando os destinos são de um modelo utilizado por professores de primário para premiar e estimular os bons alunos.

A presença de mudanças de escala, de mudança de meio (a escultura que vira desenho, a estampa que se torna escultura etc), as imitações e representações mais ou menos próximas ao naturalismo, o uso de materiais baratos que fazem referências a materiais valiosos, o deboche eficaz e o caráter definitivamente popular eestimulante criam nessa exposição um universo que consegue reunir, como

raramente, elementos do pop kitsch fantástico e estratégias de profunda crítica. A exposição “Honra ao Mérito” tem de ser, também, entendida como parte do processo de construção da pesquisa de Yuli Yagamata que, como em outros momentos de sua jovem trajetória, manipula de forma incomum materiais de uso cotidiano para apontar, com humor leveza e crítica, para elementos da banalidade (como o esporte) sob cuja superfície estão escondidas estruturas injustas, perversas ou inadequadas do mundo contemporâneo.

Bernardo Mosqueira, outubro 2017